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Verdades óbvias e muitas vezes não ditas

No momento em que um ciclo se termina para o inicio de outro, seja no esporte ou na vida cotidiana, penso sempre nos meus erros e paro para fazer uma reciclagem. Preciso rever se estou na rota, fazer pequenos ajustes na trajetória e observar as variações da natureza. Para isso, muitas vezes, costumo aproveitar o silencio para ouvir o eco dos meus erros.
Cada pessoa tem um jeito de lidar com a sua vida, seus problemas e planos pro futuro. Não estou querendo escrever uma receita de sucesso, mas gostaria de compartilhar algumas aprendizados que tive nesses primeiros anos de vida ciclística.
O ciclismo é um esporte para todos: fortes e fracos, ricos e pobres, cultos e broncos. Querer impor aos outros um padrão de perfeição é tirar do esporte o que ele tem de melhor, que é a integração. Da mesma forma que colocar metas é algo interessante pra uns, porém torna-se ridículo para aqueles que o ato de pedalar é um lazer. Agora, quem tornou o ciclismo um esporte competitivo, seja em corridas ou mesmo no randonneur (colocando metas de distancia e provas cada vez mais insanas no currículo de “concluídas”) tenho algumas coisas para te contar…
Se você tem talento, mas não tem disciplina… te afirmo: o único talento que realmente tens é o de ser um futuro frustrado. Agora, você pode ter talento, disciplina mas se deixar sucumbir pela vaidade, prepare-se para um futuro semelhante. No momento que ser “o melhor” passa a ser um objetivo maior e mais importante do que ser “melhor”, te digo que sua essência se perdeu e o fracasso é questão de tempo.
Para nos mantermos num caminho traçado, colocamo-nos muitas vezes sob as necessidades de mudanças no nosso intimo… queremos alcançar objetivos que num momento atual não somos capazes de conquistar. “Já que eu não consigo, vou me tornar em alguém que irá conseguir”. Até aí tudo bem, mas o problema reside em vários aspectos ao redor disso: tempo, disposição, família, saúde, dinheiro, etc. O sacrifício pode ser maior para uns que outros pela questão do imediatismo ou o desapego… é a “zona de conforto” agindo pra te desviar a trajetória. Segue outra verdade: se você está a fim de ser um atleta sem fazer qualquer tipo de concessão então prepare-se perder seu tempo. Terás varias pedaladas perdidas, quilômetros jogados no lixo… poderás enganar alguns por um certo tempo com essa “vida de atleta”, mas dentro de ti saberás que a verdadeira mudança ainda não aconteceu. Esse “basta” ou esse “levanta daí” não é um chamado divino, mais sim a gota d’água para as desculpas furadas de que nada pode ser feito, vem de dentro de nós, em contraponto à tudo que eu e seus amigos possamos te dizer. Erros acontecerão nessa mudança, uns serão culpa sua, outros não. O bacana é não ficar neurótico quando isso acontece, querendo achar um culpado para uma peça que estragou ou um buraco que você acertou e te tirou daquela prova em que estava decidido a completar bem. Os neuróticos e os demasiadamente pilhados sofrem de auto-sabotagem que é um ingrediente e tanto para a frustração e o ressentimento. As vezes precisamos mandar algumas coisas pro espaço (sideral), pois são dinamite pura dentro de nossos corações. Mas precisamos ser cautelosos e gentis nesse processo para não magoar outras pessoas que estão próximas à nós, sob pena de destruirmos sentimentos tão legais que um dia nos uniram ao redor bike. Algumas vezes, por conta de ideias mesquinhas, que nada mais são reflexo de experiencias passadas ruins, deixamo-nos contaminar e prejudicamos parcerias que levamos anos cultivando.
Esse texto pode ser um tanto pesado para alguns, mas a ideia que deixo para reflexão dos amigos é que sejam fiéis as suas escolhas, cresçam e aprendam no seu processo de auto-conhecimento, mas sempre valorizem seus amigos mais sinceros. E, se algum dia precisarem rever e mudar alguma escolha anterior por um motivo qualquer, façam! Mas que seja baseado no que é certo e justo para vocês, livre de ideias ou sentimentos negativos. A base para o sucesso é tão solida quanto a convicção que tens em tuas escolhas.

Desejo excelentes pedaladas ou treinos a todos vocês…
#vidadeciclista

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Ciclismo x Medo

O maior desafio de qualquer ciclista hoje em dia é, sem duvida, vencer o medo. A incerteza de sair ou não para um treino, principalmente de estrada, povoa os pesadelos da maioria de nós. Não bastassem os desafios inerentes ao esporte, agora nos deparamos com um novo oponente: a dúvida de não voltar pra casa saudável e com vida. Sim, falei vida.
A violência, o transito caótico e a impunidade tem destruído cada vez mais o ciclismo no nosso país. Percebo que o medo, que decorre de tudo isso, é um dos piores sentimentos que existem, pois acorrenta a alma, os sonhos e o futuro. E, quando pensamos que esse verdadeiro terror é causado por outros seres humanos, a tristeza, vergonha e revolta nos vem em mente.
Somos ameaçados pela pressa e irresponsabilidade… morremos por motivos fúteis. Mas o estrago causado persiste. A conseqüência da morte de um ciclista é devastadora… pois com ele se vão outras dezenas, que desistem de sair para serem alvos da maldade alheia.
A sensação de ser ciclista é a de ser um animal livre numa temporada de caça e com um alvo pintado nas costas. É um misto de ser feliz mas ser odiado gratuitamente. Sentir-se um intruso na sua própria casa. É de fazer o bem para quem te odeia. É ter de explicar diversas vezes que somos parte do transito e da sociedade. Que temos o poder de ir e vir e principalmente direito à vida.
Me pergunto até quando voltarei pra casa com um sorriso no rosto após uma pedalada, pois minha família sofre não só pela minha ausência naquelas horas mas também pela incerteza do meu retorno cada vez que saio.
Um grande abraço a todos ciclistas que conheço…

O Fio da Navalha… a vida de atleta amador.

Quantas vezes não nos vemos em uma encruzilhada, divididos entre o querer e o poder… buscamos alternativas para conciliar a vida de atleta amador com os compromissos de trabalho, família, etc. Num momento tudo flui maravilhosamente bem, nos orgulhamos de dar conta de tudo. Porém basta um pequeno entrave para que a engrenagem se desajuste. Uma gripe, um compromisso que você esqueceu porque estava focado demais num treino anterior, bastam para desencadear uma série de complicações que muitas vezes impomos aos outros devido ao excesso de foco em coisas especificas. Aquela ajuda que você não deu, a hora extra que não rolou, tudo será anotado e lembrado num momento como esse. Quando pensamos que tudo está perfeitamente bem é a hora de fazer uma analise, de receber o feedback de quem está próximo. Os grandes problemas se evitam no detalhe. Veja que uma carga maior de treino tem reflexos além do tempo direto em horas utilizado para a prática, pois você faz e depois precisa de descanso, mesmo que indiretamente. E o tempo é relativo… passa rápido pra quem está fazendo o que gosta e muito lento pra quem espera. Agora imagine quem está te esperando para resolver um assunto pendente…
Outro ponto importante é o estado psicológico que permanecemos durante as temporadas de provas. Nos tornamos ansiosos, tensos, irritados, impomos uma tortura indireta a quem nos ama. E quando um projeto que foi trabalhado incansavelmente dá errado? Muitos chegam em casa demonstrando o pior de si. Agora pense: Você segura as pontas para que seu parceiro treinar, agüenta uma carga incessante de ansiedade, horas a fio de assuntos repetidos e a pessoa chega em casa de mal humor? Como você se sentiria? Bom… ai está a resposta para o fato de muitas brigas acontecerem. Por fatos como esses , percebo que a maioria dos atletas amadores são solteiros ou tem família constituída, pois não é fácil pra nenhum(a) parceiro(a) acompanhar esse furacão que é um relacionamento assim. Há de se ter muita paciência e amor. Porém uma coisa é certa, posso afirmar com convicção que nós que treinamos, trabalhamos e vivemos em família somos extremamente enraizados em nossos sentimentos. Amamos profundamente, vivemos intensamente. O esporte é o elo que faltava em nossas correntes. E como toda boa corrente, nasceu pra viver tensionada. Queremos o mundo, mas primeiro ser reconhecidos entre nossos entes queridos. Viver é andar constantemente numa corda bamba e ser atleta amador é andar no fio da navalha. Acredito que o melhor caminho seja administrar o tempo com um sorriso no rosto, priorizando sempre a base (família), o que tornará a pratica esportiva muito mais prazerosa.

Um grande abraço!

#vidadeciclista

Devaneios Randoneiros… como venci os meus medos.

Sempre quis escrever sobre as viagens que minha mente faz quando pedalo por muitas horas sem parar, quando o sono bate e não tem aonde parar, ou mesmo quando estou longe de qualquer lugar e resolvo olhar para os lados.
Sinto como se me desligasse do corpo, do movimento, da respiração… saindo dessa dimensão… meu Eu fica localizado um pouco acima da cabeça, como se sentado sobre o capacete curtindo a viagem. Diria que é quase como um transe, só que consciente, libertador. Escuto na mente o eco das coisas que penso e sinto… encaro a mim mesmo. Confesso, nas primeiras vezes que isso aconteceu foi assustador, tive medo. Por isso, as desistências em algumas provas, o que causou por outro lado uma dor enorme acompanhada de uma sensação de impotência contra mim mesmo. Dói quando você curte demais o que faz e acredita que pode, mas seu inconsciente te bate a porta na cara. Tentei, em vão, preparar meu físico para não entrar nesse estado mental, que acontece quando o cansaço derruba algumas defesas do corpo. Muitos dizem: “Mente sã em corpo são”, mas não foi bem assim, diria que no meu caso as coisas aconteceram independentemente. Antes de me tornar super randonneur tive de de encarar uma guerra que travei contra os fantasmas do passado. Assuntos inacabados, erros, oportunidades perdidas, decepções, tudo vem à tona quando o cansaço é mais forte que a máscara que nos esconde. Minha ultima desistência me doeu na alma, pior que isso, me senti um lixo atirado num canto num momento que precisava de apoio. Fui ao fundo do poço, me deprimi. Mas quisera a vida que eu nascesse com um gatilho que se ativa em momentos assim, quando ponho os pés nesse fundo encontro força para dar um impulso rumo à superfície. Ressurgi do inferno que havia me colocado, enfurecido contra esse medo de fantasmas. E foi assim que conquistei a primeira série de brevets, quando cruzei a barreira invisível que me protegia desse acerto de contas. Eu tremia, pois como poucas vezes estava olhando para a projeção que tinha criado por décadas no mais profundo do meu ser, cheia de memórias e de verdades dolorosas. Foi um golpe duro assumir minhas fraquezas num primeiro momento, porém logo entra na luta o meu segundo gatilho, o que me coloca e tira das maiores enrascadas: a vontade de trabalhar em cima dos meus defeitos ao invés de me tornar ainda melhor no que faço bem. Com muito foco e força de vontade, resgatei cada energia negativa guardada e a transformei em energia para abastecer meus músculos rumo à desafios ciclísticos cada vez mais difíceis. Hoje, liberto de tudo que me travava, me remeto às sensações de meditação que descrevi no início do texto, não mais como quem espera por uma batalha, mas como alguém que está em paz, curtindo a obra do criador e pensando no futuro.
Com essa virada na vida, descobri uma essência de felicidade, sou mais confiante em relação ao que posso fazer, sem ser deslumbrado. Minha vontade de fotografar o que vejo aumenta muito enquanto embalado por esses sentimentos, a luz, os contrastes e as cores são espetaculares. O som do vento é como música, o calor do sol é como um suave toque que me transmite força e incentivo. Gostaria de poder escrever mais sobre isso, quem sabe um dia…
Durante a série que antecedeu o PBP, atingi um estado de equilíbrio bastante evidente pra mim, me permitindo completar as provas sem que tivesse desgaste algum no ponto de vista psicológico, somente físico. A cada queda de energia, estava pronto para dessa vez me ajudar e não sabotar, como anteriormente. O que me levou a crer, com razão, que conquistar a França seria questão de tempo e um pouco de sorte.
No Paris-Brest-Paris atingi o meu nirvana, me deixando atingir pela energia positiva que emanava por todos os lados.E, mesmo que tivesse algum problema, trataria de me proteger para poder tomar as decisões certas sem influencias negativas. Consegui transformar um desafio casca-grossa em um grande momento de confraternização e aprendizado. Fiz uma imersão tão profunda nessa viagem até aqui, que começou lá no meu primeiro brevet, que acabei me tornando uma nova pessoa, melhor e em paz consigo, a qual vou ter de pedalar muito ainda pra descobrir do que é capaz.
Espero que cada um, a sua maneira, ache um sentido especial, de crescimento pessoal, em alguma coisa que seja apaixonado. Pois uma mente negativa é uma poderosa arma de destruição em massa. A minha deixou hectares de terra arrasada, que aos poucos reconstruí, com bastante dedicação e vontade de vencer. Agradeço ao esporte, especialmente ao ciclismo, que me proporcionou o resgate de todo esse potencial que eu armazenava em forma de sentimentos. Pense bem e se for o caso mude seus paradigmas!

Bom amigos, queria deixar essa reflexão aqui para que possa, quem sabe um dia, ajudar alguém que precise de uma mensagem de apoio num momento difícil.

Grande abraço!

#vidadeciclista

“Quem somos… a vida anônima de um atleta amador.”

Uma sugestão de reflexão sobre um trânsito mais seguro.

Olá,
Você me conhece, embora imagino que não saiba o meu nome.

Sou aquele cara que muitas vezes está cedo parado num cruzamento, pacientemente esperando a chance de ser visto e seguir, sempre em segundo plano, o meu caminho.

Sou aquele que está na chuva e contra todas probabilidades reza para que você mantenha uma distância segura ao passar naquela poça de água.

Sou a pequena luz que reflete a dos faróis do seu carro na noite mais escura.

Sou muitas vezes aquele que tenta se manter bem, com o ruído que irá me incomodar por horas devido àquela buzinada desnecessária que você por raiva ou mesmo desprezo me sujeitou.

Sou aquele sujeito que você tira uma fina quando está usando celular ao volante.

Sou a pessoa que paga os mesmos impostos que você, mesmo que ache que não sou digno de compartilhar o mesmo espaço público.

Sou aquele que está ali para que você dê vazão a todas suas frustrações, as vezes sem querer, e mesmo assim reza para que tenha um dia bom.

Sou aquela vida posta em risco enquanto você fazia uma ultrapassagem imprudente e fora do local adequado.

Sou aquele que tem uma família esperando…

Posso ser mais uma vítima da omissão de socorro, enquanto você transforma um acidente em assassinato.

Mas ainda sou o resultado daquele um segundo que você estava prestando atenção ao volante, retornando pra casa.

Pense à respeito… com respeito.

Grande Abraço!

#vidadeciclista