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PARIS-BREST-PARIS e o Verão Francês…

A poucos dias da largada para a 18ª edição do evento ciclístico Paris-Brest-Paris, tenho voltado a atenção ao que acontece no país sede do mesmo. Atualmente, a mídia esportiva está toda voltada ao Tour de France, o qual além de nos brindar com lindas e apaixonantes imagens, tem servido como referência para a condição climática que encontraremos no PBP de 2015. Eis que vejo a necessidade de alertar os amigos para o contraste de temperatura que iremos encontrar durante o percurso, atualmente as temperaturas lá remetem a lembrança das fortes variações que vemos aqui no sul do Brasil, chegando a aproximadamente 30 graus Celsius de amplitude num mesmo dia. Considerando o frio da nossa estação, o que me preocupa é o calor, que tem sido uma constante no verão francês. Valores acima de 30 graus, aliadas à baixa umidade, poder trazer efeitos devastadores à performance e à saúde. Se unirmos isso ao fato de pedalarmos de maneira auto-suficiente no randonneur, deve-se ter atenção redobrada. Um mínimo de estudo e planejamento nesse ponto chave é o que gostaria de compartilhar com todos.
Para tanto, se faz necessário conceituar a Desidratação e a Insolação:
– “A desidratação ocorre quando o corpo usa ou perde mais líquido do que o ingerido. Em casos mais graves, a conseqüência será um superaquecimento do corpo. Os sinais comuns são distúrbios visuais, sede, cansaço, tonteira, câimbras, pulso fraco e rápido, queda de pressão arterial, cefaléia e vertigens “;
– “Insolação é o acidente provocado ela exposição prolongada a um ambiente quente e seco. A mais comum é a que resulta da exposição direta e prolongada ao sol. Ela causa um distúrbio no mecanismo de controle da temperatura do corpo e pode provocar febre alta, pele seca e avermelhada, pulsação acelerada, falta de ar, enjôo, vômitos, tonturas e até desmaios”.
Considerando que invariavelmente todos os ciclistas que irão participar do PBP já tem uma boa bagagem de quilômetros e situações de estresse corporal vencidas em provas, cabe lembrar dos efeitos nocivos que o corpo enfrenta e que podem dificultar muito a conclusão do desafio. A perda de sais, desidratação, a falta de proteção solar adequada, longas jornadas sem intervalos, aliadas a uma péssima ou nenhuma estratégia de paradas podem resultar numa insolação. A desidratação, por si só já seria assunto suficiente para um longo debate, mas prefiro simplificar informando que com a ingestão de líquidos, preferencialmente gelados e isotônicos, você irá promover uma redução dos batimentos cardíacos, da temperatura corporal e aceleração do tempo de recuperação nos intervalos.
Na desidratação e no aquecimento, o corpo pode perder até 3 litros de água por hora e somos capazes de absorver apenas 1 litro de água no mesmo tempo. Então hidratação, antes da prova e consumo “constante” de líquidos são vitais. Bebendo 400 a 600ml de água gelada antes de cada partida (mesmo a largada) irá promover um ganho significativo de performance e conforto. Bebidas geladas, gelo, picolés, isotônicos, intercalados com carboidratos (maltodextrina, gel, etc) e eletrólitos. Uma conta simples para você se basear é 10-12ml de água por cada quilo a cada hora. Se você por exemplo pesa 70kg, multiplique por 10 ou 12 e terá uma base de 700 a 840ml de água por hora. Outra dica importante é a de reidratar mesmos nos pontos de sono. O tempo de reidratação pode levar 6 horas ou mais e deve continuar até a hora de dormir.É importante beber água com um carboidrato simples (maltodextrina, por exemplo) ou suco de frutas doce. Afinal, além da água é necessário recuperar a energia dos músculos e fígado, além de sais minerais. Nos primeiros 30min pós-prova temos a janela de recuperação de glicogênio (energia para a contração muscular), que fica aberta por até 1 hora, embora o pico sejam os 30 minutos seguintes. Ingira mesmo que estiver embrulhado por causa do esforço. Apenas depois disso, ingerir alimentos sólidos e ricos em carboidratos complexos (arroz, pão, macarrão etc.).
Quanto à insolação, um fator importante é a aclimatação, sairemos do inverno úmido (caso do Sul do Brasil) para um verão seco. Roupas de ciclismo de boa qualidade podem oferecer uma barreira aos raios solares, sempre lembrando que o reflexo da luz solar pode nos atingir em diversas direções. Para isso, indico o de sempre: manter um protetor solar adequado ao seu tipo de pele, em quantidade suficiente.
Reaja à cultura, motivação pelo orgulho e rigor demais nas metas podem te fazer desprezar sinais de alerta que o corpo envia. Seja combativo numa subida, num momento de baixa de estimulo, mas jamais seja com a sua saúde. Uma das coisas mais bacanas do randonnèe é poder seguir no ritmo pessoal de cada um. Aquele horário de maior calor e incidência de raios solares pode ser ruim para pedalar, mas ótimo para tomar um suco bem gelado com os amigos e admirar o cotidiano dos franceses. Pense nisso!

Grande Abraço!
Allez!

#vidadeciclista
#parisbrestparis
#pbp2015

Referências:
– Insolação no Esporte: Causas, Prevenção e Tratamento, M.D. E.Randy Eichner, Gatorade Sports Science Institute, 2002;
– Esquentou? Saiba Como Pedalar no Calor, André T.Piva & Seppia, Red Bull, 2014;
– Resfriando de Fora pra Dentro na Pratica Esportiva, Ph.D Stephen Cheung, PezCyclingNews, 2011.

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Água na França: Mitos e verdades no Paris-Brest-Paris

Dando seqüência ao que foi dito sobre hidratação, li postagens diversas sobre a água da França. O que chamou mais a atenção foi um comentário de que ela teria feito mal a alguns ciclistas que pedalaram o Paris-Brest-Paris em edições anteriores, no caso a da torneira, largamente oferecida por alguns moradores durante o trajeto. Através de amigos que moram/visitaram Paris atualmente e de uma pequena pesquisa, descobri algumas informações úteis que gostaria de compartilhar com todos.
A água é oferecida em basicamente três maneiras:
– Água da torneira, é filtrada, nos restaurantes te dão de graça e tem fontes espalhadas pelo país inteiro, é só pegar e tomar, muitos franceses não compram água. É seguro e ela é bem limpa, o único porém é que tem muito calcário por causa do solo, então pesa no estômago e no meio da prova com o corpo já debilitado pode complicar pra quem não está acostumado;
– Água de fonte, chamada “Eau de Source” , muito barata no mercado (menos de 15 cents o litro), mas não é mineral. É a mesma que pega nas fontes mas com bem menos calcário, então não tem problema, só estranhamos o gosto;
– Água mineral (Vittel, Evian, etc), é bem próxima da que estamos acostumados no Brasil, mais cara, em média 1 euro a garrafa grande no mercado. O melhor é isso, mas principalmente na rua ela é cara.
Mas a água da torneira é imprópria para o consumo? Não! A Prefeitura de Paris monitora constantemente a qualidade da água, o que ocorre no resto do território francês. As normas européias que controlam a potabilidade da água são as mais rigorosas do mundo. Nela são avaliados 56 parâmetros de potabilidade definidos pelo código europeu de saúde pública.
Mas é sempre possível comprar mineral, pois a França tem mais de 100 marcas de água. A Evian é a mais famosa e a mais vendida, como a Vitel, têm menos gosto e preços bem em conta.
Mas por que alguns bebem e passam mal e outros não? Resistência e tempo de adaptação. Devemos pensar que nem todos temos o mesmo metabolismo e resistência orgânica. Numa prova de longa distancia tendemos a comer muito e em um curto espaço de tempo. Horas à fio em cima da bicicleta causam um desgaste físico extremo que precisa ser compensado, mas devido ao fato de participarmos uma prova de regularidade, muitos aproveitam o intervalo para comer mais e sair sem ter tempo de digerir ou mesmo escolhendo o alimento pelo fato de ser mais prático de ser consumido. Água mole em pedra dura… baixa imunidade, desgaste, falta de vitaminas, minerais que gastamos em excesso no endurance podem causar desequilíbrio e nos deixar mais vulneráveis. Ocorre que quando unimos isso tudo podemos ter infecções de todo tipo, má digestão por motivos simples como o próprio calcário da água. Uma simples virose que seria combatida pelo corpo antes mesmo de apresentar qualquer sintoma, se torna uma doença oportunista. Pense nisso, água é fundamental, recorra ao tipo que melhor lhe convier, mas sempre tenham em mente as informações corretas para tomar suas decisões.

Grande Abraço!

#vidadeciclista
#pbp2015
#parisbrestparis

Paris – Brest – Paris (2015)

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Poucas coisas na vida emocionam tanto quanto perceber que você trilhou o caminho certo em qualquer situação na vida. “Realizar um sonho acalentado e batalhado, viver uma experiência totalmente nova e positiva”, assim resumo o que foi pra mim chegar no final do PBP2015.
Quando lá no passado eu decidi abraçar o ciclismo como esporte, não tinha noção que meu coração seria tão fortemente arrebatado pelo Randonnée. Agora tente se projetar através do meu olhar para entender o que foi vivenciar esse evento tão especial do nosso calendário.
Sempre tive espirito combativo nos esportes, mas a empatia com a tristeza dos derrotados me impedia de comemorar as vitórias de maneira plena, fazendo que me sentisse parcialmente feliz em competições. No Randonnée, por outro lado, o desafio se dá entre nós mesmos e nossos limites.
Não cabe aqui explicações sobre o que é ser um Randonneur, então devido ao que disse anteriormente, essa modalidade me caiu como uma luva. Fiz muitas amizades verdadeiras, daquelas que anteriormente poderia contar em poucos dedos. Rever essas pessoas em terras francesas foi o primeiro grande feito do PBP. Quando, inclusive em sonhos, eu poderia imaginar rever a turma num outro continente para pedalar e se divertir? Devido a isso, fomos acometidos de um rompante de patriotismo como forma de externar a todo o mundo que não somos apenas o país do futebol, mas também uma grande potencia do ciclismo de longa distancia. Sim, digo isso sem medo de ser exagerado, pois somos guerreiros e sobreviventes no transito caótico que vivemos aqui. Falando nisso, a França é um pais maravilhoso para se pedalar, não a defendo como o melhor lugar do mundo. Há problemas, porém comparar com o Brasil seria vergonhoso e desnecessário.
Alguns sabem que estudei um pouco do idioma francês para encarar o PBP, decisão essa que me rendeu uma experiência fora dos padrões, mais turística, interagi com a população numa via de mão dupla. Descobri que o estereótipo que algumas pessoas impõem aos franceses é ridículo e infundado, pois são calorosos, hospitaleiros e muito comunicativos. O pais como um todo me remete às cidadezinhas do interior onde todo mundo se conhece e cumprimenta. As pessoas gostam de onde nasceram e costumam enfeitar suas casas com flores e muito capricho. Pergunte a um francês como ele está, verá um sorriso brilhar no seu rosto e prepare-se para uma boa conversa. A propósito, nós brasileiros somos muito queridos por eles, com o tempo percebi que a maior parte do mundo pensa o mesmo. O motivo é simples: nós brasileiros nos compadecemos do sofrimento alheio, acima da média, também somos simpáticos e comunicativos. Desde os primeiros contatos com o evento, vi a grandiosidade e a importância que as pessoas dão aos ciclistas. Visitar o Velódromo de Saint-Quentin , sede de mundiais de ciclismo de pista, foi como visitar a Meca do nosso esporte. Assim como foi o inicio da prova, com trechos lindíssimos utilizados no Tour de France. A maioria se emocionou com isso, estávamos em êxtase!
As famílias falavam frases de incentivo, as crianças faziam fila para tocar nossas mãos…éramos cumprimentados por pessoas de todas as idades e em praticamente qualquer hora do dia, durante TODO o evento. Penso se algum dia poderemos proporcionar algo à altura disso para alguém. Foi difícil não se render as lagrimas em diversos pontos da prova. Multidões de franceses, para um mundo de ciclistas… pois não tinha noção da diversidade de nações e de culturas que iriam pedalar lado-a-lado em comunhão ao esporte.
Perdi a conta de pessoas que conheci e conversas que tive, mas com um espirito único de randonneur.
Mas se você considerar apenas os mais de 1230km do percurso não terá noção da dureza de uma prova assim, pois a altimetria varia muito, não recordo de ter pedalado no plano. Os PAs e PCs sempre cheios de gente se mostraram um desafio à parte, pois as filas e alguns problemas estruturais acarretavam perda de horas de sono. Tempo esse que cobrou um alto preço a muitos randonneurs, no meu caso forçando a parar para pequenos cochilos aleatórios na estrada, para manter o mínimo de condições de atenção. Com o decorrer do percurso se encontravam muitos ciclistas dormindo na beira das rodovias, praças ou em qualquer lugar. Pessoalmente, enfrentei altos e baixos, vomitei num ponto do percurso, fui picado por uma vespa ou algo assim na mão esquerda, o que me impediu de usar a mesma por alguns quilômetros, quebrei raio da roda dianteira ao cruzar uma linha férrea em alta velocidade, tive um desconforto na coxa esquerda devido a sprints morro acima para espantar a sonolência. Mas se fosse definir os grandes vilões das longas distâncias, diria que são os dois pontos mais básicos à vida como um todo: Alimentação e Sono. Sem eles não existe desempenho, muito menos qualidade (diversão) durante a pedalada. Quem pecou nesses dois itens, teve problemas. Mas na contramão dos PAs e PCs lotados, atendendo as preces dos desnutridos e sonolentos, varias famílias abriram as portas de suas casas para nos receber, num gesto de carinho e hospitalidade impar! Pequenas cidadezinhas nos atenderam com restaurantes, cafés e muita festa. Em especial, cabe ressaltar o PC Villaines-la-Juhel… onde a cidade organizou uma grande festa que emocionou a todos.
Pouco a pouco as mensagens de incentivo dos brasileiros que acompanhavam foram chegando e uma energia poderosamente positiva nos iluminou na ultima noite até Dreux (ultimo PC), brincadeiras, alto astral e uma chuva para lavar a alma perto de Paris nos proporcionou uma chegada inesquecível e cheia de emoção… nossos anjos randonneurs que ficaram no caminho estavam à nossa espera na chegada. Carimbamos os passaportes e brindamos a vida e ao objetivo alcançado, pensando que 2019 é logo ali.
Finalmente, gostaria de agradecer as muitas pessoas que tornaram isso tudo possível:
– Minha Família, em especial a minha esposa que cuidou das nossas filhas enquanto me mandava carinho e força;
– Aos meus amigos, sem os quais eu não teria força, preparo e animo nem para pedalar 10km;
– Aos mecânicos, professores e todos que me proporcionaram a chance de completar a prova com qualidade;
– A Deus, por nos conduzir com segurança e nos iluminar com boas vibrações;
– A Poderosa, minha amada bicicleta, que me levou a realizar um grande feito, espero que o primeiro de muitos;
– Ao povo francês, por ser o povo francês. Acho que se um dia tivermos metade da educação que vocês tem, seremos um país muito mais próspero;
– E finalmente a todos os amigos brasileiros que estiveram no PBP, pedalando ou não comigo.
Parabéns Audax Club Parisien pelo grande evento!Um grande abraço a todos