Arquivo da categoria: Relatos

O Apelo do Randonnée

O Randonnée, muitas vezes conhecido simplesmente como “Audax”, trás em si uma série de definições, porém é mais do que isso: para muitos é um estilo de vida que se sobrepõe ao esporte. É a porta de entrada para muitos no mundo do ciclismo de longa distância. Mas o que faz dessa modalidade tão querida por quem a pratica? Com alguns anos de prática ininterrupta do Randonnée, simplifico essa paixão em alguns itens fundamentais:

  • Beleza: Moro numa cidade pequena, com poucos atrativos turísticos. Durante alguns eventos me permito tirar férias e viajar para lugares que raramente visitaria. Eu agora os observo sob um ponto de vista que não via antes de usar a bicicleta em viagens, descubro estradas maravilhosas que os organizadores daquele evento buscaram. A pedalada noturna é uma experiência sensorial diferenciada – subir uma montanha sob uma lua cheia ou um céu estrelado é incrivelmente belo. Muitos iniciam na modalidade como forma de aliviar a mesmice da sua rotina de trabalho diário procurando novos horizontes a explorar;
  • Desafio: Eu particularmente gosto muito de me desafiar. E o Randonnée me permite muito isso, não faltam oportunidades e desafios propostos nos calendários por todo o mundo. Porém com a segurança e o conhecimento propostos pelos organizadores certificados. Atingir uma meta de distancia e de tempo? Pedalar mais de 1000km em poucos dias? Pedalar uma rota com altimetria insana em busca do seu próximo limite pessoal? Concluir uma série de provas básicas porém desafiadoras: os BREVETS concluídos em um mesmo ano, na busca de um degrau com a homologação Super Randonneur*;
  • Amizade: Pedalar com os outros em direção a um objetivo compartilhado cria fortes amizades. Não é surpreendente para mim que os clubes de cicloturismo em Paris formaram uma das redes de apoio mais fortes durante a ocupação alemã da Segunda Guerra Mundial – quando você anda longas distâncias junto a um amigo, você forma fortes laços e também conhece bem as pessoas. Na verdade, conheci a maioria dos meus melhores amigos durante a pratica do Randonnée;

  • Disciplina: Poucos esportes proporcionam um ganho disciplinar maior que o ciclismo, quando tratamos especificamente do estilo Randonnée percebemos que essa disciplina abrange equilibradamente o corpo, a mente e o espírito. As dificuldades que se apresentam durante o desafio forjam pessoas extremamente focadas para a vida cotidiana, como em todo esporte, mas no caso do Randonnée essas mudanças se tornam bastante evidentes;

  • Autoconfiança: O perfil de desafio não competitivo mas igualmente duro, torna os randonneurs um tipo confiante de pessoa. Os medos, receios vão perdendo espaço para o “Eu Atleta” que surge dentro de cada um de nós. Luta contra obesidade, sedentarismo são histórias comuns entre aqueles que em pouco tempo estão acumulando medalhas e conquistas dentro dessa modalidade;

  • Filosofia: Posso viajar o mundo pedalando provas de Randonnée que irei encontrar pessoas com mesma afinidade de ideias e atitudes. As mesmas demonstrações de solidariedade que temos por um randonneur desconhecido parado na beira de uma estrada com problemas, você encontrará em qualquer lugar do mundo.

    O que faz o Randonnée tão atraente é que eu posso fazer todas essas coisas, saindo da minha porta, sem um enorme investimento de tempo ou dinheiro. Posso conhecer o mundo sob uma nova perspectiva enquanto crio novas amizades que poderão me acompanhar a vida toda, não importa o lugar do mundo.

    Vida longa ao Randonnée

    *Super Randonneur: Distinção dada do ciclista que pedalou uma série completa de Brevets Randonneurs Mondiaux (200km, 300km, 400km e 600km) em um mesmo ano.

     

Anúncios

Recomeçar ou manter a pegada?

O Brevet festivo de Teutônia versus o final da temporada 2015.

Em outubro encerramos o calendário de provas de ciclismo da ACP (Audax Club Parisien), para muitos é a chance de um recomeço em novembro, com novos desafios e metas, a outros a ultima chance de emplacar provas fortes que ainda restaram (brm1000 e brm400). Participar do brevet 200km de Teutônia é sempre um desafio e tanto, com a altimetria concentrada em dois pontos da prova (que ficou acima de 2500m), remeteu novatos e veteranos no esporte a encararem subidas que bateram 16% de inclinação em alguns pontos e a vencer o vento contra em parte do retorno. Em compensação, o lindo dia com temperatura agradável e as paisagens sempre lindas daquela região, atraiu muitos ciclistas, ultrapassando com folga os 300 inscritos.
Constatei que em 2015 especialmente, o intervalo no calendário após o PBP trouxe um contraste bem interessante entre aqueles que pararam e quem seguiu praticando o esporte.
Independentemente do tempo de recuperação de cada ciclista vejo a importância da regularidade na pratica de atividades físicas, mesmo que uma vez por semana sob pena de, no caso do ciclismo, perder consideravelmente o condicionamento físico. Esse número obviamente é baixo, mas cada um sabe das suas capacidades e disponibilidades. Por outro lado, em especial aqueles que puderam enfrentar grandes desafios como o PBP (independente do resultado em prova) é a oportunidade de subir alguns degraus na evolução tanto em termos de performance quanto em experiência.
Hora de reciclar e reinventar, de abrir os horizontes e manter a pegada. De ter fé na própria capacidade e confiar que tudo vai dar certo. Hoje, bastante ocupado com assuntos cotidianos e de saúde estou exercitando outros fundamentos para o Randonnèe (meu esporte do coração) que é a Resiliência extrema, a fé e a alimentação. Ou seja, mesmo sem tempo, clima ou energia para uma pedalada podemos nos manter em evolução. Se pensarmos no esporte como um conjunto de atitudes dentro e fora da estrada veremos o muito que pode ser feito. É a hora de fazer valer quando se diz que um Brevet é tanto por cento psicológico. É momento de parar de arrumar desculpas e entrar de vez no espírito de que o ciclismo é uma fonte de alegria, saúde física e mental, não de problemas e frustrações.
Vamos viver uma série 2016 plenas de sorrisos e novas amizades.
Grande abraço…

1001 Miglia – La piú estrema randonnée

A minha relação com a Itália remonta ao nascimento. Tenho descendência italiana, sempre ouvi histórias da minha origem, geralmente com uma narração carregada de um bom sotaque de imigrantes.

A saga da 1001 Miglia começou ao final do Paris-Brest-Paris (1230km em 2015). Quando retornei das terras francesas, trouxe na bagagem a ideia de manter-me motivado com uma nova meta: percorrer os mais de 1600km nas terras dos meus ancestrais.

Mas nem tudo são alegrias ou mesmo vitórias… quisera o destino que a minha amada mãe, que lutava contra o câncer, estivesse num estado muito delicado. Então, nessa preparação, meu coração sangrou muitas vezes. Busquei forças e apoio em meus amigos e na bicicleta um ponto de controle emocional para encarar essa guerra pela vida, que acabou no dia 16 de abril, com o falecimento da minha mãe, vitimada pelo câncer.

A perda da minha mãe teve inicialmente um efeito devastador na minha vida e de toda a família. Meu pai estava muitíssimo abatido e precisando de todo nosso apoio. Nesse ponto um novo caminho se abriu: a possibilidade dele ir comigo a 1001 Miglia, para conhecer a Itália e fazer algum turismo. Decidimos os dois que seria o ideal… então tivemos que mudar tudo: hotel, alguns passeios, novo passaporte pra ele, etc.
Eu por um lado estava arrasado… perdi minha mãe. Mas de outro eu ganhei um pai aventureiro.
Os anos de tratamento da minha mãe tiveram um efeito muito nocivo sobre a saúde do meu pai: fora de forma, com muito peso, precisando estudar inclusive. Hora de se recuperar e voltar pra guerra (aqui cabe uma trilha sonora de Rocky, o Lutador).

Por outro lado, a parada me derrubou a performance. Estava num momento difícil, juntei os cacos daquilo que sobrou do antigo Eu. Considerava ser experiente em muitos aspectos da vida, mas nada te prepara pra isso. Foquei em retomar os trilhos rumo à Miglia.

O caminho para vencer essa empreitada eu já sabia de cor: reforçar os 4 pilares de um bom randonneur. São eles: Capacidade física (musculatura), emocional (psicológico), orgânica (nutricional e check-up) e o conhecimento do desafio (rotas, idioma, costumes).

Busquei o melhor de mim, acordando muito cedo, em torno de 5h da manhã para pedalar antes de ir trabalhar, na maior parte dos dias, por todo o período que tive entre os dois desafios (PBP e Miglia).

Meu envolvimento em Brevets nesse período não foi muito grande, embora eu tenha feito uma série crescente e decrescente no processo (200 a 600 e daí descrendo a 200 novamente), sendo algumas dessas no sistema DIY (faça-você-mesmo). Não poupei esforços: musculação, nutricionista, médicos, professora de italiano. Mas nada se compara à perda a minha mãe, que me colocou na necessidade de ir lá com ela no meu coração e de mãos dadas com o meu Pai. Com companhias assim eu vencerei qualquer desafio. Não foram poucos os dias e noites que chorei sozinho, na estrada, enquanto pedalava… nossa ligação é muito forte.

13886877_892769850827535_8653978636713025921_nPlanos refeitos, detalhes práticos variados as vezes são adaptados de uma viagem solitária para outra em família. Porém ver o rosto e a alegria do meu pai nessa viagem, valeu qualquer esforço.

13901510_893962557374931_1102295455367123238_nChegando na Itália, partimos rumo à Roma, para um turismo expresso. Um choque de emoção de cara, visitando o Vaticano, rezei por minha Mãe, esposa e filhas, todo restante da família e amigos.
Roma é muito legal, muitos recantos e obras inigualáveis… voltarei lá um dia com certeza. No retorno a Nerviano (Milão), o encontro com os outros brasileiros e demais amigos randonneurs estrangeiros que não via desde o Paris-Brest. Nesse momento, meu pai começa a se integrar ao grupo, escutando as histórias e fazendo novos amigos… o que me deixou muito contente. Surge então uma proposta inesperada de um novo amigo:  abandonar sua programação de passeios no período da Miglia para se unir a um carro de apoio e ver a prova (e naturalmente a Itália). A dúvida na resposta, tentando não me desagradar, o deixou sem sono.

13925009_895208077250379_786287920191924715_nMeu primeiro contato com a organização da Miglia aconteceu no primeiro treino antes da prova, onde conheci a largada e recebi indicações de como proceder a retirada do kit, do briefing e da localização de uma oficina parceira para que pudesse alinhar as rodas da minha bicicleta, que sofreram avarias no transporte. No retorno, meu pai decide que,  junto a um amigo, iria acompanhar a prova. Muda tudo de ultima hora (passagens, hotéis)… por uma pequena e prazerosa loucura. Eu penso “Cara, meu pai vai pra Miglia!”. Confesso que foi um acaso muito bom que o destino e os novos amigos nos reservaram… não tenho palavras aqui para agradecer ao Adilson e Fábio por tudo que fizeram pelo meu pai e eu. Estava chegando a hora da largada mas estava enfim, tudo encaminhado.

13924820_897518200352700_6094874391425011195_nCom muito maracujá e descanso depois, alinhamos para a largada. Dias antes da viagem, um projeto de camiseta para os brasileiros alusiva ao evento, me tomou bastante tempo. Porém, ver a aceitação e as pessoas realmente se sentindo bem com seus uniformes me deu um orgulho danado… obrigado a todos antecipadamente!

Do Brasil, as mensagens chegavam a todo momento… grupos de WhatsApp agitados! Amigos, família mandando votos de sucesso.

untitledCom a possibilidade de utilizar um rastreador pessoal, a experiência de rodar sob os olhos da torcida me caiu muito bem, nunca me senti só.
Partimos por volta de 21h (horário de Nerviano… 16h no Brasil)… eu, Vitor, Rafael, Dionatan e Nuno… sendo que esses dois últimos acabei acompanhando desde o princípio devido ao ritmo diferenciado de cada ciclista.
Ainda antes do PC1 (Fombio 104km) vários problemas… rotas com erros, inclusive com trechos de bloqueio na via. Meu Garmin quebra o encaixe e sai rolando no asfalto devido a buraqueira das estradas. Com a ajuda de uma cinta, travei o aparelho novamente à bicicleta improvisando um conserto.

Na chegada do PC2 (Colorno 184km), repomos água na Fontana da praça e nos alimentamos numa cafeteria que ainda estava aberta… noite agradável pra pedalar embora o trecho exigisse bastante navegação pelo GPS. Meu Pai descansava no Ponto de Controle dentro do carro e passo batido por ele sem perceber.

14064062_897518310352689_6905853448783800042_n
Após uma noite difícil, por conta da falta de comida em um ponto crucial antes do PC anterior, relembramos o valor das moedas para comprar comida nas maquinas de venda automáticas. Ao raiar do dia, encontramos um bom lugar para comer na beira da estrada, na sequencia um Pc Secreto com pouco mais de 200km de prova… dentro de um barco no Rio Pó… onde repomos água, nos alimentamos e usamos protetor solar.
14051594_897518410352679_7731394255888136386_nNeste momento, meus amigos ficam um pouco para trás e sigo sozinho, numa estradinha bem bacana com túnel verde, que me aliviou um pouco o calor. No caminho conheço um Romeno que estava sozinho rodando com uma cadência baixíssima. Conversamos um pouco, mas logo a fome começou a bater… hora de embalar para o almoço!
14022243_897518680352652_7972424187644446877_nChegando no PC3 (Massa Finalese km 304), paramos para o almoço. Hidratação, frutas, massa e um repouso leve para encarar o calor acima de 35ºC sobre o asfalto. Meu pai estava no PC, nos trouxe alguns sanduíches que reforçaram a comida fraca deste ponto. Uma conversa rápida, uma cerveja e voltamos à estrada.
14054494_777413379066836_3099805912299608003_oSeguimos para o PC4 (Lugo km 406), e descobrimos que o mesmo estava num local muito fora do combinado. Ao pararmos no ponto indicado, um fotógrafo nos viu e disse que o controle que antes estaria na praça (de acordo com o mapa) estaria no Campo Esportivo Madonna Delle Stuoie, que fica mais à frente e fora da rota, insistimos e ele nos conduziu até lá.
13934840_897518820352638_830782886917497339_nChegando lá Nuno sente dores estomacais e tentamos medica-lo com os poucos recursos que tínhamos… esperamos pela sua recuperação, aviso os amigos que encontram-se mais atrás na rota sobre a mudança do PC.
Em seguida, encontro meu pai e vejo que está tudo bem, o que me agrada muito. Vitor e Rafael também chegam. Porém saímos eu, Nuno e Korb momentos depois.
14039977_897518823685971_5190875185701287024_n.jpg
A Miglia faz uma baixa no nosso grupo, o Nuno, as dores estomacais se agravam. Ele tenta até o final se recuperar… mas não conseguiu, parou em prol da sua saúde… decisão acertada que quem sabe o que faz. Seguimos um pouco entristecidos, mas faz parte… importante foi saber, ao final, que se recuperou bem.
13939571_897518880352632_1525729761420312370_nOs primeiros 400 quilômetros foram, na minha, opinião os mais complicados. Embora planos, a estrada era ruim, o visual não era dos melhores… confesso que estávamos começando a nos arrepender.
Seguimos Korb e eu para a quinta etapa, a última que programei antes de dormir e a primeira com altimetria realmente desafiadora.
O que se desenhou um desafio tedioso e cheio e arrependimentos, se transformou com a paisagem da Toscana. “Agora sim estamos pedalando na Itália”, foram as primeiras palavras do Dionatan em elogio ao evento… confesso que o sentimento foi um consenso da maioria dos participantes. Naquele momento foi como se acordássemos para a Miglia.
Paramos numa cantina muito animada na divisa de Firenze e Ravenna, comi um dos melhores sanduiches de salame com pão da minha vida. Um grupo animado de senhoras conversa comigo, depois em coro gritam pelo meu nome “Forza Cesar!”… que animo de estar na Toscana!
Subimos logo ao anoitecer, sob gritos de incentivo que ainda ecoavam na minha mente.
14034967_897518927019294_7735533730005847409_nAo chegar na primeira montanha, que indicava ser a mais alta e inclinada de todo evento, começa a emoção. Mas o treino, o corpo e principalmente a bicicleta estavam respondendo muito bem. Foi desafiador, mas o prazer da conquista a tudo supera. Próximo ao topo, rajadas de vento fortes tentaram nos dificultar a conquista do Passo Sambuca. Já na descida, curvas, buracos e muita tensão na condução da bicicleta para não colocar a prova em risco.
Quando julgava que tinha descido toda montanha, retorna a escalada, contrariando o mapa da altimetria do evento…sobe, sobe e sobe! Chego ao Prato All’Albero. Então dali foi só descida. Na sequencia encontrava-se o ponto de sono e alimentação PC 5 (Dicomano km 509). Porém uma má noticia nos esperava, o que se definia por “dormitório” era pura e somente um teto sobre nossas cabeças, não haviam camas ou nada semelhante. Dormimos algumas horas no chão mesmo, saímos bastante chateados com as condições do local.
Hora de encarar o segundo dia de prova, logo no início mais uns 1000m de altimetria, com inclinação elevada. Foram 34km de um bom pedal até o PC6 (Vallombrosa km 545), sendo os últimos 25km de pura escalada. Encontro o Vitor na subida e fico sabendo de algumas desistências de brasileiros na prova.
Uma parada rápida e seguimos rumo ao PC7 (Chiusi km 665) onde teria acesso ao primeiro bagdrop. No caminho, o pedal da bicicleta começa a fazer um barulho muito incomodo.
14040070_897521580352362_543195929395533040_nPouco antes do controle, um percurso de 3km por estradas de chão… chegamos no Velódromo Montallese na hora do almoço, mas devido ao calor, tomei um banho e acessei meu bagdrop, onde somente troquei a camiseta que estava usando e deixei alguns itens que não iria utilizar até o final da prova. Saímos do PC e fomos almoçar a uns 500m do mesmo, bem mais acomodados e com uma boa cerveja para espantar o calor. Reencontro meu pai e alguns brasileiros no restaurante.
14063981_897521717019015_475885425774606299_n
Um pouco mais a frente, em Panicale, campos de girassóis nos presentearam com um espetáculo de cores. Hora de parar para algumas fotos!
A caminho do PC 8 (Todi, km 750) encontramos alguma chuva, embora pouca, mas que aliviou bastante o calor. Viria a saber, ao final da prova, que esse ponto encontra-se muito próximo ao epicentro do terremoto que assolou a Itália dois dias depois. Reencontro meu pai no PC e tomamos um café juntos.
14054119_10206449849315531_1398720816090975891_n
Todi é uma cidade com muitos atrativos: castelo, muralhas e uma enorme catedral, mas o controle era muito carente no quesito alimentação, então seguimos em frente em um restaurante que embora caro, não demorou a nos atender.
14034715_901626899941830_330808076372693538_nHora de seguir para o PC9 (Bolsena km 810), mas devido a algumas subidas e descidas, Dionatan segue na frente. Sono aperta e acabo errando feio a entrada para Bolsena, que era numa descida íngreme, passo 3km até de dou conta de estar fora de rumo… penitencia? Subir os 3km de volta antes de uma bifurcação que indicava a rota certa…
Bolsena é notavelmente bonita, muitos recantos e imponência medievais. Ali finalizava minha meta diária num ponto de sono… meu prêmio? Dormir no concreto dentro de outro ginásio. Comi um pão com presunto, uma coca e uma cerveja para ver se apagava de vez. Combino horário de relargada com o Dionatan, sairíamos as 6h.
Um ciclista foi descuidado, pra não dizer desrespeitoso, deixou seu celular tocando incessantemente próximo a mim, encurtando meu tempo de sono em 30min.
As pernas pesavam um pouco naquele momento, então decidi rodar mais uns 300km na esperança de solta-las um pouco (risos)…
14079493_901627056608481_6620814781154305299_nÀ caminho de San Quirico Orcia, uma subida espetacular e uma cidade encantadora chamada Pitigliano. Um fato curioso que nos acompanhou em quase toda a jornada: sinos das igrejas tocando, nesse lugar cheio de construções antigas, não seria diferente.
14088678_901627183275135_8632245474030008175_n.jpgA proximidade com a hora do almoço e a falta d’água nos reservou uma boa surpresa, saímos um pouco da rota e fomos a San Casciano dei Bagni pedir água em algumas casas perto da estrada. Lá fomos bem atendidos por um casal. Após reabastecermos as caramanholas, os simpáticos italianos nos indicaram um ótimo restaurante poucos metros à frente, onde duas Morettis e um espaguete à Carbonara salvaram o dia. Retornando à rota tínhamos uma grande subida, nessa Dionatan seguiu em frente mais rapidamente.
14045697_901627416608445_7812795292065827552_nNo PC 10 (San Quirico Orcia km 929) uma parada para me alimentar e reencontrar meu pai, fico pouco tempo pois no controle seguinte, a 51 km dali teria acesso ao segundo bagdrop. Trecho muito bonito e tranquilo, segui pedalando sozinho e tirando algumas fotos. No caminho, uma parada para comprar um pedal novo para a bicicleta. Uma vez que, o incomodo estalo que apresentava o anterior, aumentava cada vez mais.
14068256_901627453275108_1131701317639246634_nChegando no PC 11 (Castelnuovo Berardenga km 980) reencontro o Mino, motorista do translado para o Hotel. O mesmo estava responsável pelo transporte e cuidados dos bagdrops. Conversamos um pouco, tomei um bom banho e troquei de roupa. Ao acessar o conteúdo da bolsa, pego um powerbank carregado e um pote cheio de pomada para assaduras, pois o que tinha comigo estava perto do fim. Me alimentei, conversei com alguns ciclistas e pelo celular, descubro que o Nuno está bem, acomodado numa cidade mais adiante e que esperava nos ver passar. Confesso aqui que a amizade do Nuno é uma das minhas grandes conquistas da Miglia.
Hora de voltar à estrada, estava entardecendo e eu tinha uma boa meta com uma montanha antes de pensar em dormir.
Mas o caminho ainda reservava muitas novidades, a rota passava por dentro do Burgo de Siena… bem movimentado, de difícil navegação e com piso muito irregular, embora lindíssimo. Tive de procurar a saída com um inglês e um italiano que estavam com a mesma dificuldade.
Em seguida, um PC Secreto, onde por conta do sono tive de apelar para um gelato de chocolate, três cafés e um energético.
14088404_901627609941759_7930462206662586643_n.jpgPouco mais à frente, chego à San Gimignano. Uma cidade com um burgo encantador… hora de reencontrar o Nuno, tomar o gelato premiado da famosa Gelateria Dondoli, momentos antes de fechar. Foi bom rever o amigo e saber que estava bem!
O trecho que se segue foi especialmente difícil: o sono me obriga a fazer uma pausa pra dormir, desta vez num posto de gasolina… acordo meio desorientado, com frio e sem nada para comer. Faltavam somente 10km para o PC12 (Stafoli km 1120), onde cheguei momentos depois. Jantei e por falta de ter um dormitório (embora estivesse marcado no roadbook), dormi enrolado no cobertor de emergência, num pequeno depósito de ferramentas, com mais três outros ciclistas.  Ao acordar, saí do PC e fui tomar café num bar próximo. Nesse momento sou informado que estavam fazendo uma homenagem aos Pracinhas Brasileiros que combateram na Segunda Guerra e tiveram papel fundamental naquela região… senti um misto de vergonha e orgulho. Nossos heróis de verdade são mais conhecidos fora do Brasil.

14102468_901628016608385_7535319282310966172_nQuarto dia de prova, começa com uma escalada que eu apreciei muito… até o Bagni di Lucca. Foram 20km de subida a partir de Pescia, onde encontrei muitos ciclistas na estrada, parei numa sombra e comi um sanduiche extra que pedi no café da manhã.

osteria.jpgUm tempo depois, prevenindo uma possível falta de comida, fiz uma das paradas que mais me agradou na prova, em Castelnuovo di Garfagnana, numa Osteria. Me fez lembrar a serra gaúcha, mesa comprida, todo mundo sentando junto, friambres, pães e muita conversa! Hora de tocar para Pc seguinte, pois queria sair de lá antes de entardecer.

14045644_901628229941697_4517264595987891311_nNo caminho um paraíso sobre as montanhas… Lago di Gramolazzo. Cheio de atrativos num domingo à tarde… pessoal curtindo o sol. A escalada até o controle tinha acabado…
13975247_901628513275002_4543320803841328081_oPc 13 (Gorfigliano km 1221), localizado num campo de futebol… tinha pouco movimento. Me alimentei e conversando fiquei sabendo que ali a temperatura despenca com o pôr-do-sol. Então, nada de ficar parado… sigo para Deiva Marina. Antes, converso com meu pai ao telefone e descubro que erraram o caminho para esse PC e iriam demorar a chegar.
14102726_901628519941668_9123320089222693813_nO caminho até Deiva Marina é longo e tem duas montanhas antes. Achei prudente fazer uma parada em San Remigio numa Trattoria para encher o tanque e levar uns suprimentos.
14068223_901628586608328_8966569281284624488_n

Seguindo adiante, começo a sentir o efeito nocivo de pedalar nas estradas irregulares, pra não dizer esburacadas do trajeto.  Mãos começam a criar bolhas e perder a sensibilidade. No caso da mão esquerda, essa perde um pouco da coordenação e principalmente da força. Tornou-se necessário modificar até mesmo a forma de pedalar, uma vez que trocar as marchas começou a ser um desafio à parte. Uma vez iniciada a lesão, a mesma só fez evoluir até o final da prova, o que trouxe bastante dificuldade em manusear pequenos objetos como, por exemplo, moedas. Trouxe comigo dois tipos de anti-inflamatórios, os quais comecei a fazer uso a partir desse ponto.

Aproximadamente 4km antes do previsto, descubro que o Pc14 (Deiva Marina km 1326) havia trocado de lugar. Chegando lá, aviso todos meus amigos que estavam na estrada e tenho uma surpresa pouco agradável: Ponto de sono e alimentação não dispunha de nenhum dos dois recursos. Começo a ficar bastante irritado com este fato, mas recomponho o controle emocional. Conversa daqui e dali e consigo, à duras penas, um pedaço de pão e uma xícara de café. Hora de usar a cabeça e procurar um hotel para ter uma noite de sono decente. Aviso meu pai e o carro de apoio de meus amigos sobre a alteração, enquanto fico sabendo de um hotel com vagas a uns 10km dali… saindo uns 4km da rota original. Soou como música, parti imediatamente. No caminho, uma sequencia enorme de túneis cortavam o litoral e montanhas na costa italiana.

14063797_901629163274937_5438876709267091913_nA melhor noite de sono de toda a prova… 3h de sono dos deuses… o dia prometia! Antes, uma parada tranquila para tirar uma foto à beira mar. Uma nova etapa, faltavam duas montanhas e poucas subidas para o final da Miglia. Começa a bater uma nostalgia, muito tempo sobrando e pouca distância pela frente.
deiva 2
Um filme começa a rodar na cabeça a partir desse ponto, minha jornada até aqui… tantos treinos, tanta atenção envolvida. Os amigos! Ah… como me sinto rico por faltarem dedos nas mãos para contar as pessoas que fazem toda a diferença na minha vida. Lembro de cada um, de cada palavra de incentivo ou mesmo de consolo nos momentos tristes. Pensamento voa, quando percebo estou chegando no PC 15 (Casella Ligure 1420km), lá encontro Jan Rigolle usando a camiseta do Dionatan… conversamos bastante e decidimos rodar juntos com Joris, outro belga, até Castellania.

14100532_901629316608255_1256970318378591399_nNa estrada, um bom trecho plano… resolvemos fazer uma pausa para espantar o calor na metade da distância entre os PCs. Cafés, torradas e algumas cervejas no caminho da ultima e única subida do segmento.
Fausto.jpgPC 16 (Castellania 1480km), o mais importante e histórico controle da prova, em homenagem à Fausto Coppi. Tive a honra de conhecer Sergio Coppi, primo de Fausto,  ouvir suas histórias e tirar uma a foto na estátua do herói italiano (e meu também).
Converso rapidamente com meu pai, informando que estava indo rumo à Nerviano e que estava muito bem. Sigo sozinho. Neste ponto, por alguns instantes, não contenho as lágrimas pensando na minha mãe, na minha esposa e filhas. Agradeço a Deus por mais um bom dia, enquanto assisto o pôr-do-sol.
Uva.jpgUm erro na rota me coloca dentro de um parreiral, forçando a perder tempo precioso do dia claro… acabo forçando demais as mãos, que ficam muito dormentes. Na sequencia de trajetos errados, acabo acertando uma pedra que fura o pneu da bicicleta. Devido ao problema agravado nas mãos, tive realmente muita dificuldade de fazer o reparo. Por sorte, dois ciclistas do Veneto que estavam na prova, me ajudaram a encher o pneu, uma vez que eu não tinha força na mão o suficiente para segurar a bomba de ar. Na dúvida de ter mais problemas, resolvi seguir com eles nos quilômetros finais da Miglia.
14063823_901630689941451_1217863297406076836_nA 50km do final, a busca por um ponto de alimentação nos fez parar um bar de motoqueiros italianos! A primeira impressão era que estava numa roubada, mas muito antes pelo contrario… ficaram boquiabertos com a nossa aventura e bebemos boas cervejas juntos, comemos alguns paninis e cantamos algumas músicas italianas antes de encarar o final dessa saga. Dali enfrentamos um trecho com bastante vento mas, quem se importa a essa altura?
Chegada.jpgNa chegada à Nerviano, meu pai estava lá. Emocionado, fez questão de me entregar a medalha dessa conquista. E para ajudar ainda mais, trouxe com ele uma pizza para reforçar a minha refeição (valeu pai!).  Entre sorrisos, conversas e piadas, esperamos outros randonneurs chegarem, numa confraternização que invadiu a madrugada italiana.

14022209_901630936608093_8908348216411152964_n.jpgAli sentado, com um grande desafio concluído na bagagem, comecei a pensar nas voltas que a vida dá. Naquilo que me move a pedalar tão longe, a sair do meu país e do convívio da minha família para me meter numa aventura como a 1001 Miglia. Ou principalmente, não parar por aqui. Só tem uma explicação: eu amo tudo que faço. O Randonnée é o meu esporte. Não tem dor, nem problema que seja maior que minha admiração por todos que fazem da vida uma grande jornada de autoconhecimento e superação pessoal. Treino pra isso, pra ser merecedor de fazer parte desse grupo de pessoas fantásticas que o mundo chama de RANDONNEURS.

“DEDICO A CONQUISTA DA 1001 MIGLIA À MINHA MÃE, CARMEN GASPERIN DOSSO, QUE ME ENSINOU A AMAR A VIDA E A ME TORNAR A PESSOA QUE SOU HOJE.
TE AMO MÃE!! “

14117912_901631073274746_6343775188696926410_nAGRADECIMENTOS:
– Primeiramente a DEUS, que me amparou em todos os momentos em que minha vida esteve em risco;
–  A PODEROSA, minha bicicleta, que suportou todo tipo de desafio ao meu lado sem me deixar com duvidas da conclusão da 1001 Miglia;
– Ao meu pai Pedro Roberto Dosso, por ser ele mesmo desde sempre… mudou tudo e se dedicou para me acompanhar na Itália. Jogou um passeio lindo no lixo pela possibilidade acompanhar a prova de carro, mesmo sabendo que nos veríamos muito pouco… valeu pai, te amo muito;
– As mulheres da minha vida, Daniela (esposa), Manuela e Isabela (filhas) por serem parte de mim, minha torcida e quem conhece como ninguém os meus anseios… amo vocês com todas minhas forças;
– Ao Dieter Brack, por ser o meu anjo randonneur de sempre… esteve conectado o tempo todo, mandando informações e principalmente sendo o ombro amigo pros momentos ruins… tu é o cara;
– Ao meu irmão Paulo, que estava na torcida e cuidando de todos nós a distancia, me passando a tranquilidade necessária;
– A minha sogra Neusa e toda sua família, por darem o suporte mais importante do mundo com as meninas nos momentos de necessidade;
– Ao Adilson e Fabio Torecillas, pela parceria fora e dentro da Miglia, foram as grandes conquistas minha e de meu pai conviver com vocês nesses dias a Itália… muito sucesso e contem conosco pra qualquer parada;
– Ao Vitor Matzembacher, por servir de exemplo pra mim muitas vezes e por me fazer chorar na segunda de manhã ao saber que chegaste bem;
– Ao Rafael Castro por ter sido um ombro amigo em muitos momentos e especialmente por me instigar a não comprar uma camisa da Miglia no eBay a 1 ano atrás e também me ajudar na organização dessa viagem;
– Ao Dionatan Korb e Nuno Lopes por serem fodões, por cantarem bem em italiano e por me acompanharem em parte do trajeto;
– A minha professora de italiano, Ângela Cusato, por me fazer fluente no idioma  por ajudar meu pai a melhorar os seus conhecimentos;
– Ao meu preparador físico, Sandro Sehn, da academia Perfil, por deixar meu chassis pronto pra essa prova;
– A minha nutriocionista Cristiane Parizotti, por me deixar com o corpo na medida certa e com a resistência orgânica em condições de superar dos exageros iria passar no evento;
– Ao meu mecânico, Daniel Garça, por cuidar da minha bike com tanto carinho;
– A Furbo, pelas excelentes camisetas que abrilhantaram nossa participação na Miglia;
– Ao Café Glorinha e aos Randoneiros dos Pampas pela torcida… ;
– Aos meus muitos amigos que terei de agradecer pessoalmente por tudo que fazem por mim diariamente… treinos, chatices,  alegrias e problemas em geral;
– Ao Lisandro Magnus, Delcio Filho, Fernando Druck, Arlizegar Moreira, Pedro Medina e muitos outros que pedalam e estão sempre em contato comigo;
– Ao povo italiano por fazer desse o “piú belo paese del mondo”;
– A toda organização da 1001 Miglia.

Continua em London 2017…

Paris – Brest – Paris (2015)

11952872_801175433336973_2174933705844577596_o
Poucas coisas na vida emocionam tanto quanto perceber que você trilhou o caminho certo em qualquer situação na vida. “Realizar um sonho acalentado e batalhado, viver uma experiência totalmente nova e positiva”, assim resumo o que foi pra mim chegar no final do PBP2015.
Quando lá no passado eu decidi abraçar o ciclismo como esporte, não tinha noção que meu coração seria tão fortemente arrebatado pelo Randonnée. Agora tente se projetar através do meu olhar para entender o que foi vivenciar esse evento tão especial do nosso calendário.
Sempre tive espirito combativo nos esportes, mas a empatia com a tristeza dos derrotados me impedia de comemorar as vitórias de maneira plena, fazendo que me sentisse parcialmente feliz em competições. No Randonnée, por outro lado, o desafio se dá entre nós mesmos e nossos limites.
Não cabe aqui explicações sobre o que é ser um Randonneur, então devido ao que disse anteriormente, essa modalidade me caiu como uma luva. Fiz muitas amizades verdadeiras, daquelas que anteriormente poderia contar em poucos dedos. Rever essas pessoas em terras francesas foi o primeiro grande feito do PBP. Quando, inclusive em sonhos, eu poderia imaginar rever a turma num outro continente para pedalar e se divertir? Devido a isso, fomos acometidos de um rompante de patriotismo como forma de externar a todo o mundo que não somos apenas o país do futebol, mas também uma grande potencia do ciclismo de longa distancia. Sim, digo isso sem medo de ser exagerado, pois somos guerreiros e sobreviventes no transito caótico que vivemos aqui. Falando nisso, a França é um pais maravilhoso para se pedalar, não a defendo como o melhor lugar do mundo. Há problemas, porém comparar com o Brasil seria vergonhoso e desnecessário.
Alguns sabem que estudei um pouco do idioma francês para encarar o PBP, decisão essa que me rendeu uma experiência fora dos padrões, mais turística, interagi com a população numa via de mão dupla. Descobri que o estereótipo que algumas pessoas impõem aos franceses é ridículo e infundado, pois são calorosos, hospitaleiros e muito comunicativos. O pais como um todo me remete às cidadezinhas do interior onde todo mundo se conhece e cumprimenta. As pessoas gostam de onde nasceram e costumam enfeitar suas casas com flores e muito capricho. Pergunte a um francês como ele está, verá um sorriso brilhar no seu rosto e prepare-se para uma boa conversa. A propósito, nós brasileiros somos muito queridos por eles, com o tempo percebi que a maior parte do mundo pensa o mesmo. O motivo é simples: nós brasileiros nos compadecemos do sofrimento alheio, acima da média, também somos simpáticos e comunicativos. Desde os primeiros contatos com o evento, vi a grandiosidade e a importância que as pessoas dão aos ciclistas. Visitar o Velódromo de Saint-Quentin , sede de mundiais de ciclismo de pista, foi como visitar a Meca do nosso esporte. Assim como foi o inicio da prova, com trechos lindíssimos utilizados no Tour de France. A maioria se emocionou com isso, estávamos em êxtase!
As famílias falavam frases de incentivo, as crianças faziam fila para tocar nossas mãos…éramos cumprimentados por pessoas de todas as idades e em praticamente qualquer hora do dia, durante TODO o evento. Penso se algum dia poderemos proporcionar algo à altura disso para alguém. Foi difícil não se render as lagrimas em diversos pontos da prova. Multidões de franceses, para um mundo de ciclistas… pois não tinha noção da diversidade de nações e de culturas que iriam pedalar lado-a-lado em comunhão ao esporte.
Perdi a conta de pessoas que conheci e conversas que tive, mas com um espirito único de randonneur.
Mas se você considerar apenas os mais de 1230km do percurso não terá noção da dureza de uma prova assim, pois a altimetria varia muito, não recordo de ter pedalado no plano. Os PAs e PCs sempre cheios de gente se mostraram um desafio à parte, pois as filas e alguns problemas estruturais acarretavam perda de horas de sono. Tempo esse que cobrou um alto preço a muitos randonneurs, no meu caso forçando a parar para pequenos cochilos aleatórios na estrada, para manter o mínimo de condições de atenção. Com o decorrer do percurso se encontravam muitos ciclistas dormindo na beira das rodovias, praças ou em qualquer lugar. Pessoalmente, enfrentei altos e baixos, vomitei num ponto do percurso, fui picado por uma vespa ou algo assim na mão esquerda, o que me impediu de usar a mesma por alguns quilômetros, quebrei raio da roda dianteira ao cruzar uma linha férrea em alta velocidade, tive um desconforto na coxa esquerda devido a sprints morro acima para espantar a sonolência. Mas se fosse definir os grandes vilões das longas distâncias, diria que são os dois pontos mais básicos à vida como um todo: Alimentação e Sono. Sem eles não existe desempenho, muito menos qualidade (diversão) durante a pedalada. Quem pecou nesses dois itens, teve problemas. Mas na contramão dos PAs e PCs lotados, atendendo as preces dos desnutridos e sonolentos, varias famílias abriram as portas de suas casas para nos receber, num gesto de carinho e hospitalidade impar! Pequenas cidadezinhas nos atenderam com restaurantes, cafés e muita festa. Em especial, cabe ressaltar o PC Villaines-la-Juhel… onde a cidade organizou uma grande festa que emocionou a todos.
Pouco a pouco as mensagens de incentivo dos brasileiros que acompanhavam foram chegando e uma energia poderosamente positiva nos iluminou na ultima noite até Dreux (ultimo PC), brincadeiras, alto astral e uma chuva para lavar a alma perto de Paris nos proporcionou uma chegada inesquecível e cheia de emoção… nossos anjos randonneurs que ficaram no caminho estavam à nossa espera na chegada. Carimbamos os passaportes e brindamos a vida e ao objetivo alcançado, pensando que 2019 é logo ali.
Finalmente, gostaria de agradecer as muitas pessoas que tornaram isso tudo possível:
– Minha Família, em especial a minha esposa que cuidou das nossas filhas enquanto me mandava carinho e força;
– Aos meus amigos, sem os quais eu não teria força, preparo e animo nem para pedalar 10km;
– Aos mecânicos, professores e todos que me proporcionaram a chance de completar a prova com qualidade;
– A Deus, por nos conduzir com segurança e nos iluminar com boas vibrações;
– A Poderosa, minha amada bicicleta, que me levou a realizar um grande feito, espero que o primeiro de muitos;
– Ao povo francês, por ser o povo francês. Acho que se um dia tivermos metade da educação que vocês tem, seremos um país muito mais próspero;
– E finalmente a todos os amigos brasileiros que estiveram no PBP, pedalando ou não comigo.
Parabéns Audax Club Parisien pelo grande evento!Um grande abraço a todos