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10 reflexões após pedalar 1200km

Na mesma linha de pensamento do 10 Fatos do Ciclismo de Longa Distância

Vamos direto ao ponto:

1. Comer, dormir, pedalar e repetir… simples assim.
A simplicidade é um alto grau de sofisticação. Quando atingimos um nível de entendimento amplo sobre a longa distancia descobrimos que as ações mais simples, desde que bem feitas, são as mais eficazes. A harmonia destes quatro verbos do titulo deste item é que irá reger a sinfonia do seu desafio. Evoluir nisso é um trabalho constante, o verdadeiro treinamento de base da longa distancia. A diferença das rotas, das infraestruturas encontradas, do clima, da sua condição de saúde e do tamanho da distancia trazem uma gama de variáveis que torna cada pedalada única. Portanto, o equilíbrio desses 4 pilares é a receita para o sucesso, embora cada pessoa se adapte melhor a um “tempero” diferente.

2. Disciplina e conhecimento são importantes, mas saber improvisar é fundamental.
No cicloturismo muito se aprende sobre improvisação da estrada, imagine estar num local sem recursos, só você e a bike. Então treine a arte do improviso sempre que possível, desenvolva seu pensamento lógico inclusive na hora de escolher seu equipamento. Existem possibilidades infinitas à todo momento, mesmo enquanto estiver lendo esse texto, imagine numa pedalada extremamente longa: problemas mecânicos, falha humana, um corte inesperado de um pneu… um trecho com muita chuva!
Improvisar até para se motivar, por que não?

3. Paixão não basta, tem de ser amor.
Ultraciclismo é um esporte para poucos, não basta somente querer (desculpe a sinceridade extrema). Você pode pedalar longas e gigantescas distâncias se desejar (e seu corpo aguentar) mas somente criam raízes na modalidade aqueles que amam esse retiro espiritual com a bike. Não basta o ímpeto, a explosão… você aprende que tem de manter o controle e o foco para ter sucesso numa empreitada longa. Faça porque se sente bem com isso, não por um impulso ou para provar algo aos outros.

4. Equilíbrio instintivo.
Autopreservação, o instinto que inicialmente servia como limitador de suas capacidades, se torna seu aliado. Com a maturidade e o autoconhecimento você começa a usar seus instintos mais básicos como termômetro para impulsionar seu desempenho e precaver possíveis desequilíbrios traiçoeiros. Aprenda a hora de parar, de desligar do mundo exterior. Atualizar as redes sociais não é um bom exemplo de pensamento recorrente numa prova de longa distancia. Concentre-se em você mesmo, na sua postura, interprete os sinais do seu corpo e atue de forma proativa, torne isso um instinto tão básico quanto respirar e perceba a sua evolução ao passar do tempo… é enorme!

5. O “óbvio” perde o sentido em muitas situações.
Existem poucos profissionais na área da preparação esportiva que entendem o que realmente acontece entre 4 dígitos de um pedal de longa distancia. Estamos sujeitos, especialmente em provas focadas na autossuficiência, a sermos o mais próximo possível do “veículo movido a feijão com arroz”. Porém no que tange a provas internacionais, as vezes não tem feijão, em outras não tem arroz. Reeducação alimentar é importante, mas deixe sempre uma margem ao inesperado. O mesmo acontece com a escolha dos equipamentos da sua bicicleta, a busca da performance perde o sentido quando trabalhamos com perda de confiabilidade, resistência e segurança em situações extremas. Grupos formados por ciclistas atuantes na sua modalidade são uma fonte valiosa de conhecimentos, aprenda a ouvir.

6. O mundo se torna um álbum de figurinhas.
A grande vantagem de se pedalar longas distancias é romper fronteiras. O mundo é seu para pedalar. Existem muitas provas mundo afora que podem se unir perfeitamente com uma viagem exploratória fascinante. Comece pelo seu quintal, durante sua preparação, explore as cidades vizinhas, torne um hábito. Descubra que a motivação para ir além está no fato  de que ao pedalar nossa percepção é muito mais profunda do que numa viagem de carro por exemplo. Quer fazer turismo? Vá primeiro de bike, sempre que puder.

7. Alguns upgrades são totalmente desnecessários.
O corpo memoriza muitas coisas, embora nossa postura mude com o passar do tempo. Assim, uma vez encontrado seu ponto adequado de confiabilidade e conforto na sua bicicleta evite trocar seu equipamento para acompanhar as tendências de mercado. Aproveite ter uma reserva monetária de segurança, nunca se sabe quando vai surgir um desafio imperdível num local ainda inexplorado por você. Por outro lado, trabalhe sempre com a ideia que algumas soluções criativas podem resolver grandes problemas. Pondere bem com as necessidades atuais do seu corpo, sua disponibilidade financeira e a compra por impulso. 

8. Autoconfiança.
Se existe um grande premio em romper limites é a autoconfiança que fica após a linha de chegada. Em momento de grandes dificuldades da vida, a recordação de uma pedalada épica (traduzindo: dura) nos dá a esperança e a motivação necessárias para seguir em frente. Colecionar conquistas é muito bom, obviamente, mas largar uma prova com autoconfiança é desapegar da ansiedade e das dúvidas para enfim “aproveitar o momento”. Mesmo os mais experientes um dia tem problemas e desistem de um desafio. Mas os que tem sua autoconfiança aprendem que eventualidades acontecem e não perdem tempo se julgando negativamente.

9. Esteja aberto as mudanças.
Não seja uma ilha, seja o próprio oceano. Pedalar em novos locais, com novas pessoas é muito legal. Porém faça isso sem julgar. Aproveite para praticar a empatia quando estiver analisando aspectos culturais. Essa é a essência deste esporte tão magnífico: conhecer novos horizontes. Esteja aberto ao conhecimento que esta aí disponível gratuitamente todos os dias, faça novos amigos, rasgue seu livrinho de verdades imutáveis. Desapegue do pelotão tradicional, se perca entre novas parcerias e informações. Evolua para uma versão cada dia melhor de si mesmo.

10. Autoconhecimento e volta as origens
Neste processo eterno de autoconhecimento, descobrimos que a informação não só é libertadora como nos trás uma lição de humildade enorme. Com o tempo, a compreensão do nosso tamanho minúsculo dentro do universo nos faz perceber que todo conhecimento perde o sentido quando não é compartilhado. A importância de ajudar aqueles que estão iniciando, sejam amigos ou completos estranhos, nos trazem um entendimento melhor sobre nós mesmos. Nos projetamos em gerações futuras ao mesmo tempo que nos reciclamos… é uma tarefa infinita, mas gratificante!

Grande abraço a todos.

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