Relação Peso X Desempenho

Inicialmente quero dizer que o foco desse texto não é a performance. Pelo menos não aquela que se mede inicialmente com números e gráficos, porque o peso ao qual me refiro não é mensurável numa balança comum. Falo sobre aquele que carregamos no nosso espírito. Considero que cada um de nós tem uma ideia formada sobre o que é felicidade, sucesso e satisfação, todas diferentes uma das outras. A combinação dessas respostas é a identidade da nossa alma.
Todos queremos essa plenitude e estabelecemos um plano de ação para alcançá-lo. Uma vez que são diferentes, tanto o objetivo como o plano, cada individuo segue um rumo. Aí começam a confusão e os problemas. Serei um tanto radical em falar que pra alguém a felicidade é viajar o mundo de bicicleta, para outro pode ser levantar da cadeira de rodas voltar a caminhar. Alguém almeja ter um corpo perfeito, pra outro o sonho é ter braços pra acariciar o seu filho.
Atribuímos, nessa escolha, os obstáculos que irão nos assombrar nas decepções da vida. Cada falha ao tentar sobrepor esses obstáculos é um peso, um fardo, que carregamos conosco até a vitória absoluta do nosso plano de felicidade.
A busca por essa vitória gera, por sua vez, inúmeras expectativas. Nos focamos em vencer os impasses que nós mesmos criamos para atingir nosso objetivo, único e exclusivo criado por nossa mente. Consideramos que, sendo assim, há somente uma maneira de ser feliz. Nos privamos do alegria de ser surpreendidos, pois nosso inconsciente entra em modo de defesa. “Precisamos defender nosso modo de vida”, usamos tanta energia nesse processo que quando estamos a ponto de alcançar essa “pseudo-plenitude” estamos doentes na nossa alma.
Mas existem casos em que a pessoa alcança o que quer com uma certa facilidade… por acaso, destino, seja como for… e o que vem depois? O vazio… porque o cérebro marcou, planejou e concretizou. “Vamos viver a felicidade”, até que enche o saco…
Qual a saída para esse dilema? Talvez seja uma boa forma de chegar a uma plenitude real.
Algumas pessoas tentam viver sem metas, não querem nada. Mas tudo isso seria trazer o vazio do futuro para o presente, num estalar de dedos. E o medo de desapegar? Talvez esteja aí uma receita, não carregar peso consigo e andar mais leve, poder olhar para todos os lados sem procurar nada em específico. É ir, voltar e parar sem culpa. A alegria da vida também está sob nós e na renovação de tudo a cada horizonte. E pode ter certeza, quanto mais leve tu estiver mais rápido tu chega numa nova paisagem. Se abrires a tua mente para o mundo perceberá que qualquer caminho leva até lá. A plenitude está em admirar os mais variados horizontes e poder compartilhar com quem quiser, sem receios ou expectativas. Ria muito das suas metas atuais. Tenha coragem de vencer o desconhecido, ou nem tente, saiam para tomar um café e fiquem amigos. Seja livre.
#vidadeciclista

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Ciclismo x Medo

O maior desafio de qualquer ciclista hoje em dia é, sem duvida, vencer o medo. A incerteza de sair ou não para um treino, principalmente de estrada, povoa os pesadelos da maioria de nós. Não bastassem os desafios inerentes ao esporte, agora nos deparamos com um novo oponente: a dúvida de não voltar pra casa saudável e com vida. Sim, falei vida.
A violência, o transito caótico e a impunidade tem destruído cada vez mais o ciclismo no nosso país. Percebo que o medo, que decorre de tudo isso, é um dos piores sentimentos que existem, pois acorrenta a alma, os sonhos e o futuro. E, quando pensamos que esse verdadeiro terror é causado por outros seres humanos, a tristeza, vergonha e revolta nos vem em mente.
Somos ameaçados pela pressa e irresponsabilidade… morremos por motivos fúteis. Mas o estrago causado persiste. A conseqüência da morte de um ciclista é devastadora… pois com ele se vão outras dezenas, que desistem de sair para serem alvos da maldade alheia.
A sensação de ser ciclista é a de ser um animal livre numa temporada de caça e com um alvo pintado nas costas. É um misto de ser feliz mas ser odiado gratuitamente. Sentir-se um intruso na sua própria casa. É de fazer o bem para quem te odeia. É ter de explicar diversas vezes que somos parte do transito e da sociedade. Que temos o poder de ir e vir e principalmente direito à vida.
Me pergunto até quando voltarei pra casa com um sorriso no rosto após uma pedalada, pois minha família sofre não só pela minha ausência naquelas horas mas também pela incerteza do meu retorno cada vez que saio.
Um grande abraço a todos ciclistas que conheço…

Flèche Velócio: Histórias e Reflexões

Tradicionalmente na sexta-feira santa, todos os anos, é realizada uma prova magnífica batizada de “Flèche Velócio”, onde pequenos grupos de ciclistas se organizam e pedalam por 24 horas de um ponto a outro, com o intuito de chegarem juntos a um destino pré-determinado (em geral sedes de organizadores de brevets). Porém muito além de uma simples pedalada, esse desafio tem uma simbologia muito bacana envolvida, primeiramente pela sua história, cheia de nuances interessantíssimas…
Este evento foi criado por Pierre Molinier que foi presidente do Audax Club Parisien. Na época, ele adotou a ideia de Paul de Vivie (“Velócio”) que na Páscoa pedalava para Pernes Les Fontaines, sua cidade natal, por conta própria ou com alguns amigos. Ele amava esta área, que é linda nessa época do ano: a natureza com todos os seus aromas encantadores. A fim de lembrar e homenagear este grande ciclo-turista, criou-se um evento de Páscoa em seu calendário. O primeiro Fleche aconteceu em 1947, o destino foi a catedral de Notre Dame de Paris. Equipes de cinco ciclistas eram obrigados a chegar o mais próximo possível do destino, cobrindo a distância em 24 horas. Em seguida, no domingo, todos se encontraram e ainda hoje é realmente agradável para ver os amigos de diferentes lugares se reencontrando, sejam eles participantes Flèche ou simplesmente aqueles que tem um passeio de lazer. Para ajudar os pilotos as regras foram alteradas: elas podem desencadear de qualquer lugar, mas a data permaneceu inalterada.
Quando o prêmio Randonneur 5000 foi introduzido (onde o Flèche é pré-requisito), muitos ciclistas estrangeiros tentaram obtê-lo. Eles tinham todos os outros passeios de qualificação, mas não conseguiam chegar a França para participar do evento. Por isso, na ACP decidiu que poderiam ser executados em outro lugar desde que os regulamentos Flèche Velócio fossem respeitados.
Dada a história dessa grande confraternização, penso que é um grande passo para todo randonneur participar do planejamento e execução de um pedal de auto-suficiência. De poder observar os problemas pelo lado que quem organiza e se responsabiliza pelos brevets que muitas vezes criticamos. Parece fácil, mas tenho certeza que não é.
Vejo o Flèche como um grande passo rumo à maturidade de qualquer ciclista e colocar ele como requisito a uma distinção como o “Randonneur 5000” foi uma sábia decisão.
Lançar-se num desafio por sua conta e risco é um ato de coragem num país como o nosso. Porém, a possibilidade de fazer uma prova personalizada e estar entre bons amigos supera em muito qualquer dificuldade inicial, o que fica evidente pelas brincadeiras que antecedem a largada. São histórias e registros que ficam na memória de quem ama o ciclismo, a vida e suas amizades. Um randonneur nunca esquece de nenhum Flèche que tenha participado, pois é uma pedalada que marca. Basta perguntar, o relato está sempre na ponta da língua, rico em detalhes e sempre contado com muita alegria.
Desejo que todos ciclistas, mantenham vivas a experiência vivida muitas vezes por Velócio, de sair numa jornada com seus amigos para reencontrar muitos outros, que as vezes por falta de um pequeno passo deixamos de reencontrar.
Desejo a todos os “Flecheiros” uma excelente jornada…
E para aqueles que ainda não se sentem aptos à isso, que possam fazer um pedal em nome da “amizade”, especialmente na época da Páscoa, que tem uma energia tão especial para renascer grandes sentimentos.

Grande abraço!
#vidadeciclista

Fonte Histórica : “audax-japan.org

O Prêmio Maior:

Nenhuma medalha reluz tanto quanto assistir ao sol nascer depois de uma longa noite pedalando. Não há nada que substitua a energia renovadora da natureza. Esse é um dos principais ensinamentos que o ciclismo me trouxe: o amor à natureza.
Esse sim é o maior premio: pedalar à noite e poder apreciar um céu limpo e estrelado, emoldurando uma lua brilhante e majestosa, que nos faz sentir como criaturas divinas. E, depois de tudo isso, ver a vida renovar com um novo dia.
Desejo para todos os meus amigos que sempre tenham boa saúde e disposição para contemplar a força da vida, como se vê nesse nascer do sol que apreciei nesta pedalada pelo Vale Verde.

#vidadeciclista

As Máquinas do Tempo… Bicicleta x Fotografia.

Nesse mundo onde o tempo é precioso e as mudanças acontecem num ritmo acelerado, cada momento torna-se crucial… mas nem sempre foi assim. Desde cedo, fomos acostumados e treinados a valorizar cada minuto. Assim, nossa percepção de tempo vai mudando com o passar dos anos. Quando criança, lembro-me do tempo passar mais devagar. Agora adulto, tenho a sensação que ele flui numa velocidade bem maior.
Perguntei-me muitas vezes o que teria mudado e, em contraponto à teoria da relatividade, cheguei a conclusão que o relógio gira em torno da intensidade que amamos. Quando amamos alguém, o tempo voa na sua presença, os anos parecem semanas…
Foi então que pedalando, por coincidência ou destino, descobri que a bike tem o poder de regular o tempo. Quem ama e pedala tem uma suave sensação de que o tempo desacelerou.
É a paixão em movimento. São duas forças que em ressonância criam momentos mágicos, inesquecíveis. Daí aquela sensação de voltar a ser criança quando giramos o pedivela, retornando àquela época em que o pouco representava muito. Nos apaixonamos por nossas “máquinas do tempo”.
Vendo por esse angulo, a bicicleta não é só um veículo. Ela transporta mais o espírito que o corpo para os lugares onde os sonhos viram realidade. Cada pequeno som da bike na estrada é como um mantra que repetimos para entrar em sintonia com o divino que há em cada um de nós. Somos parte da natureza e, nesse momento, olhar para os lados é imprescindível. De tanto exercitar essa “admiração” acabei por desenvolver uma paixão por fotografia. Nesse ponto existe um convergência de interesses, uma me leva para ver o nascer do sol enquanto a outra eterniza o momento e completa a experiência sensorial. Quando uma pedalada é fotografada ela se torna parte permanente das nossas memórias, uma imagem que fala por si só. Momentos bacanas de serem recordados uma vez que o ciclista é como uma criança com um relógio quebrado no pulso, achando graça, feliz da vida. Ter registros assim é manter renovada a infância e a vida. O próprio Einstein, valorizava o uso da bicicleta… dizendo que viver é como andar de bicicleta.
Somos crianças brincando de ser adultos enquanto pedalamos …ou seria o contrário?
Um grande abraço!

#vidadeciclista

O Fio da Navalha… a vida de atleta amador.

Quantas vezes não nos vemos em uma encruzilhada, divididos entre o querer e o poder… buscamos alternativas para conciliar a vida de atleta amador com os compromissos de trabalho, família, etc. Num momento tudo flui maravilhosamente bem, nos orgulhamos de dar conta de tudo. Porém basta um pequeno entrave para que a engrenagem se desajuste. Uma gripe, um compromisso que você esqueceu porque estava focado demais num treino anterior, bastam para desencadear uma série de complicações que muitas vezes impomos aos outros devido ao excesso de foco em coisas especificas. Aquela ajuda que você não deu, a hora extra que não rolou, tudo será anotado e lembrado num momento como esse. Quando pensamos que tudo está perfeitamente bem é a hora de fazer uma analise, de receber o feedback de quem está próximo. Os grandes problemas se evitam no detalhe. Veja que uma carga maior de treino tem reflexos além do tempo direto em horas utilizado para a prática, pois você faz e depois precisa de descanso, mesmo que indiretamente. E o tempo é relativo… passa rápido pra quem está fazendo o que gosta e muito lento pra quem espera. Agora imagine quem está te esperando para resolver um assunto pendente…
Outro ponto importante é o estado psicológico que permanecemos durante as temporadas de provas. Nos tornamos ansiosos, tensos, irritados, impomos uma tortura indireta a quem nos ama. E quando um projeto que foi trabalhado incansavelmente dá errado? Muitos chegam em casa demonstrando o pior de si. Agora pense: Você segura as pontas para que seu parceiro treinar, agüenta uma carga incessante de ansiedade, horas a fio de assuntos repetidos e a pessoa chega em casa de mal humor? Como você se sentiria? Bom… ai está a resposta para o fato de muitas brigas acontecerem. Por fatos como esses , percebo que a maioria dos atletas amadores são solteiros ou tem família constituída, pois não é fácil pra nenhum(a) parceiro(a) acompanhar esse furacão que é um relacionamento assim. Há de se ter muita paciência e amor. Porém uma coisa é certa, posso afirmar com convicção que nós que treinamos, trabalhamos e vivemos em família somos extremamente enraizados em nossos sentimentos. Amamos profundamente, vivemos intensamente. O esporte é o elo que faltava em nossas correntes. E como toda boa corrente, nasceu pra viver tensionada. Queremos o mundo, mas primeiro ser reconhecidos entre nossos entes queridos. Viver é andar constantemente numa corda bamba e ser atleta amador é andar no fio da navalha. Acredito que o melhor caminho seja administrar o tempo com um sorriso no rosto, priorizando sempre a base (família), o que tornará a pratica esportiva muito mais prazerosa.

Um grande abraço!

#vidadeciclista

Alternando o Foco…

Em treinos, aprendemos algumas lições simples e valiosas.
Acordando cedo, com vontade e foco de alcançar meus objetivos, saí para treinar. Com o clima agradável, resolvi acelerar um pouco e fazer uma boa média.
Tudo ia perfeitamente bem, até que numa descida furou o pneu dianteiro da bicicleta. Pensei… “mas que porcaria”. Ninguém gosta de parar quando está focado, para não dizer pilhado. Foi quando eu olhei pra trás e vi essa cena que fotografei.
Parei para observar e rir de mim mesmo… quantas vezes a gente não se vê assim, se achando azarado por motivos pequenos? Talvez eu perdesse esse momento, como devo ter perdido muitos outros.
Lembrei de respirar, olhar pros lados e ver tudo de bom que tem ao meu redor… acelerar, correr e dar conta de tudo é bom. Desde que te sobre tempo pra parar e olhar pra trás e dar umas risadas…

#vidadeciclista

Relatos, pensamentos e inspirações de um ciclista de longa distância